QUANDO A VIDA SE CANSA E ESCOLHE POR NÓS
"Decidi terminar meu noivado…percebi que o Tiago ainda não é meu par perfeito…Não é que falta alguma coisa nele…sobra-lhe algo…sobra-lhe a filha". Assim começou um dos diários de Marcela Lins Ferreira.
Foi preciso destacar tratar-se de um dos diários, porque Marcela já teve vários cadernos destinados a pôr em letras, linhas e parágrafos seus sentimentos - tanto os bons quanto os ruins. Enquanto ela escrevia sobre aquela página, fazia-o sem notar que outros três diários já haviam sido iniciados apenas naquele ano, embora todos tivessem tido o mesmo destino: alguma caixa ou gaveta de armário onde se colocam coisas fadadas ao esquecimento - essas coisas que só são lembradas quando elas mesmas querem aparecer. Já mais de uma vez, Marcela achou coisas que já nem sequer pareciam mais dela, ao procurar outro item aleatório, como um sapato de que se lembrara fortuitamente, ou ao iniciar um processo de mudança (reforma do closet, substituição das roupas ou mesmo a mudança de endereço, que não foram poucas nesses últimos 15 anos).
Numa dessas mudanças, ante a necessidade de ampliar seu closet, pois o anterior já não suportava mais a quantidade de adornos, sapatos e roupas, ela se deparou com um diário antigo, de quando ela ainda tinha 24 anos, tempos antes de realizar seu sonho de se tornar promotora de Justiça. Com um robe vermelho, óculos de grau que ela dificilmente exibia em público e um daqueles calçados confortáveis que se usa apenas sob o conforto da nossa privacidade, ela abriu uma gaveta e olhou o caderninho com o escrito "meu primeiro diário". Nem era bem o primeiro, porque ela já havia tido outros enquanto adolescente. Ela interrompeu a reorganização dos seus objetos, pegou o diário e sentou-se no chão, na companhia das duas cadelinhas que dividiam aquela quadra da vida de Marcela. Abriu o diário em uma página aleatória e leu:
"Me apaixonei perdidamente por um homem velho e casado…credo!"
O diário fazia referência ao professor de Marcela durante a faculdade. Tratava-se do Dr. Paulo Casado. O sobrenome era uma coincidência, porque Paulo era casado há dezoito anos e tinha três filhos - o mais velho com idade próxima à de Marcela. Paulo não era lá o que se pode chamar de homem bonito. O que o tornava atraente era o humor e a autoridade de professor e de promotor de Justiça respeitado. Além disso, ele estava sempre muito bem vestido, ou com ternos bem cortados ou com blazers muito bem combinantes com o restante do conjunto.
Não consta que ele fosse um galanteador ou que assediasse as alunas, mas também não recusava investidas. Somados os que ocorriam nos ambientes do Ministério Público e da universidade, Paulo já havia tido sete ou oito casos. Mas foi Marcela quem mais o prendeu afetivamente. Ele nunca havia notado-a com atenção. Marcela era tímida e quase não falava durante as aulas, apesar de sempre ter sido uma das melhores alunas da turma. Mas foi no último ano do curso de Direito que as coisas mudaram.
Como Marcela decidiu escrever sua monografia sobre execução penal, não havia ninguém melhor na universidade para orientá-la do que o Dr. Paulo, que já atuava na fiscalização de presídios do Estado há seis anos, numa promotoria que também acumulava o ofício de direito criminal em geral. Logo na primeira reunião entre eles, a fim de discutir detalhes da orientação, depois do fim de uma das últimas aulas do semestre, Dr. Paulo disse a Marcela:
Você está com fome? Eu estou faminto e adoraria comer alguma coisa num restaurante. O que você acha?
Marcela aceitou. O convite pareceu tão despretensioso que um "sim, aceito" veio quase automaticamente.
O erro de ambos, mas principalmente de Marcela, foi aceitar tomar uma garrafa de vinho. Erro porque, se a situação já é sugestiva, recomenda-se evitar bebidas alcoólicas, pois elas diminuem nossa consciência e, depois de certo ponto, aniquilam nossa vontade. É como se, depois de três ou quatro taças, nossas bocas e pernas ganhassem vontade própria, levando nossas palavras e nossos corpos a um só lugar: o do arrependimento.
Com Marcela não foi diferente. Depois de um jantar feito de gostos e sabores, em que as línguas se deleitam na experiência da comida, dos gracejos e dos flertes, em que os sorrisos e os olhares se trocam como que se atraindo uns pelos outros, foi inevitável. Ao fim do jantar, Dr. Paulo se predispôs a levar Marcela para casa, mas não antes de levá-la a um motel da cidade, onde selecionaram uma grande e bela suíte, à altura daquele momento, cujo desfecho só poderia ser um: o encontro do prazer no toque dos corpos nus. Antes de entrarem, o coração de Marcela palpitava, numa espécie de linguagem do corpo que, se nos faz notar que estamos praticando algo errado, impele-nos também ao risco de nos arrependermos. Marcela acabou ignorando sua consciência e os sinais do próprio corpo para conhecer os detalhes do corpo alheio. Nesse mesmo tempo, a única preocupação do Dr. Paulo era não ser visto, justamente naquela cena um pouco constrangedora para todos, na qual devemos nos dirigir ao atendente do estabelecimento, mostrar nossos rostos e intenções e escolher o quarto mais apropriado. Para o Dr. Paulo, a situação não era nova. O receio de ser visto decorreu da demora do atendente em liberar logo a entrada, o que permitiu que outros dois carros se enfileirassem atrás.
Tudo ocorreu bem, apesar da aflição inicial de ambos, cada um por motivos próprios e distintos.
Contudo, logo depois de consumado o ato, Marcela, já sob a ressaca do ato inconsequente de relacionar-se intimamente com um homem casado, olha para o teto espelhado, procurando desviar o olhar do Dr Paulo, coloca o antebraço direito sobre a testa e, num tom morno, questiona ao Dr. Paulo:
você acha que deveríamos ter feito isso? Afinal, você é casado.
Paulo responde:
não se preocupe, meu casamento está horrível e eu estou me separando.
É curiosa a relação do brasileiro com o gerúndio. Usamo-nos dessa forma nominal dos verbos como se ela apontasse o pretérito perfeito. Se reservamos um serviço qualquer para determinada hora e o prestador se atrasa no atendimento de outro cliente, logo ele nos diz: “está acabando”. Nem importa tanto quanto tempo ainda demorará o atendimento em curso e a nossa espera. A expressão “está acabando” tem o objetivo de impedir nosso protesto e diminuir nossa impaciência. É assim também quando marcamos uma reunião ou um encontro com outra pessoa que, já atrasada, afirma sem receio “estou chegando”. Foi esse o sentido da frase dita por Dr. Paulo ao indicar “estou me separando” - um gerúndio que, no caso, jamais encontrou um termo final.
Quem conhecia a história de Marcela e Dr. Paulo jamais poderia imaginar que duraria longos seis anos e mudaria por completo a vida de Marcela. A vida tem dessas coisas: tem seu curso profundamente alterado nem tanto pelas circunstâncias, é mais porque nós acabamos demorando demais a reagir diante dos fatos brutos da existência, em geral esperando que algum evento milagroso nos salve da nossa omissão, da nossa preguiça, da nossa inércia. Foi exatamente isso que ocorreu com Marcela. Uma vez apaixonada por Dr Paulo, mas martirizada pelas acusações do seu próprio juízo, ela esperava que surgisse outro homem em sua vida, capaz de salvá-la dela mesma e daquela relação que já durava tempo demais.
Marcela terminou a faculdade e, ante a influência que Dr Paulo exercia sobre a sua vida, decidiu que também se tornaria membro do Ministério Público. Ela já estava encantada com atuações do Dr Paulo em julgamentos do júri - essa forma curiosa que nós termos de lidar com coisas sérias de um jeito teatral. Mas a influência do Dr. Paulo foi além disso. Como Marcela já estava formada em Direito e se mostrava muito bem preparada em assuntos de Direito Penal, ele a convidou para ser assessora dele no Ministério Público do Estado de ***. Ela não pestanejou. O salário era bom, poderia se livrar da dura rotina num escritório de advocacia e ganharia tempo para poder estudar para concursos - coisa que ela fazia até mesmo dentro do gabinete do Dr. Paulo, que até a incentivava a aproveitar tempos ociosos no trabalho de assessora.
Durante o relacionamento de Marcela e Dr. Paulo, não eram raras as cobranças dela para que ele terminasse logo o casamento de duas décadas - cobranças que se acentuavam sempre que, depois de uma noite de sexo desprotegido, sua menstruação atrasava consideravalmente. Para Marcela, engravidar já não parecia uma boa escolha; de um homem casado, então, era um pesadelo. Mas Dr. Paulo sabia contornar as cobranças, não apenas recorrendo ao gerúndio, mas também comprando joias e organizando viagens curtas com Marcela, durante as quais ela se esquecia do projeto de ter um marido. No fundo, conhecer outra pessoa consiste nisso: em ser capaz de aplacar sua fúria, reduzir sua tristeza e até desviar suas inclinações.
O tempo passou com tudo se repetindo exatamente como narrado acima: cobranças, desculpas e conciliações. Marcela se cansou. Aliás, o coração dela se cansou primeiro. Já não amava mais Dr. Paulo. Contudo, como ela já havia se acostumado aos bons restaurantes da cidade, aos presentes caros e como seu cargo de assessora do Ministério Público lhe dava a oportunidade de continuar estudando sem grandes percalços, ela decidiu continuar o relacionamento. Preferiu a conveniência à satisfação do coração. Mas não sem tentar conhecer outros rapazes, sempre furtivamente, é claro. Afinal, se Dr. Paulo descobrisse as traições, poderia demiti-la do Ministério Público e atrapalhar os sonhos dela de ser aprovada num concurso.
Houve até uma vez em que Marcela decidiu voltar a sair com um ex-namorado, dos tempos da faculdade. O rapaz até gostava dela, embora fosse muito incômodo sair às escondidas com alguém que parecia casado com outra pessoa casada, numa trama de dois casamentos paralelos. Em uma das vezes em que saíram, o rapaz convidou Marcela para assistirem a um filme no apartamento dele. Marcela só aceitou depois de ter tomado uma garrafa de vinho em um restaurante da cidade. Na cabeça dela, estava fazendo algo muito errado. "Eu não posso trair o Dr. Paulo" - ela pensava. Em verdade, porém, não era essa a origem da sua aflição. Isso ocorria porque Marcela já estava há muitos anos vivendo uma vida semi-escondida, num constante estado de autoacusação. Foi esse estado mental que ela queria desligar - e a garrafa de vinho era o botão respectivo.
Contudo, nada ocorreu como planejado. Nem o rapaz pôde usufruir dos suspiros do corpo de Marcela, nem ela pôde livrar-se da sentinela interna, que de tudo a acusava no momento. Marcela até entrou no apartamento do rapaz, mas, no primeiro beijo a sós, ela desabou em lágrimas. O rapaz teve raiva nos primeiros segundos, sentimento que se converteu em compaixão logo depois. Tentando racionalizar o evento, ele arriscou dizer a ela "se você continuar nesse relacionamento, pode se machucar tanto que será impossível apaixonar-se novamente". Contudo, a situação já estava trágica demais. Ele decidiu, então, dar a ela um analgésico e pedir um táxi para que ela voltasse para casa.
No caminho de volta, Marcela pediu ao motorista que parasse o veículo por duas vezes, para vomitar o que tinha no estômago. Já quase chegando a casa, ela decidiu ligar para o Dr Paulo, de madrugada. Naquele estado ela nem sabia o que dizer. Seu objetivo era apenas obter algum mínimo conforto, nem que fosse ouvindo a voz do seu já ex-amado. Ele não atendeu, como é de se esperar de um homem na sua condição. Marcela dormiu sozinha e, ao acordar, tinha tantos motivos para se arrepender que, no fim, apenas seguiu o script de uma segunda-feira qualquer, pensando "cada dia com seu mal…e o de ontem já teve muitos".
***
Como o Dr. Paulo a dissuadia sempre da decisão de prestar concursos do Ministério Público em outros Estados, o sonho de Marcela precisou esperar um pouco mais do que o esperado. Alguns seres humanos têm essa inclinação: preferem agarrar-se a um relacionamento infeliz com medo de mais infelicidade - suas perspectivas de vida são tão baixas que eles, como o Dr. Paulo, só conseguem pensar em termos de “infeliz” ou “muito infeliz”, segurando-se ao que já possuem com todas as forças.
Em 20**, aos trinta anos, Marcela foi enfim aprovada para o cargo de promotora de Justiça do Estado de **, mesma instituição a que pertencia o Dr. Paulo. O dia da posse foi triste e feliz, ao mesmo tempo. Feliz pelas razões que nós podemos imaginar: depois de tantos anos de estudo, de sonhos, de projeções, de expectativas, enfim tudo se torna realidade, sob os holofotes da festa, dos amigos, da família. Triste porque Dr. Paulo estava na festa acompanhado da sua esposa. Marcela já não era mais apaixonada por ele, mas a presença da Sra. Bernardes acendeu em Marcela um forte sentimento de culpa, que só pôde ser aplacado pela exagero nos goles de champanhe. Às três da manhã, Marcela chorou nos ombros de uma das primas convidadas para a festa, que, ciente da história, bem compreendeu o momento, convencendo Marcela a ir embora.
Marcela acabou indo trabalhar em uma cidade do interior do Estado e, por três meses, ainda reencontrou Dr. Paulo cinco ou seis vezes, depois de longas viagens de ônibus até a capital do Estado. Como ela conhecia poucas pessoas na cidade em que trabalhava, rever Dr. Paulo satisfazia sua necessidade de se conectar ao sexo oposto. Porém, essa satisfação custava caro demais. Na volta para o interior, durante as oito horas de viagem, sua mente se concentrava num só pensamento: “eu mereço ter uma vida melhor”. Foi isso que motivou Marcela a escrever uma mensagem para Dr. Paulo, ali mesmo durante a viagem de volta:
Querido Paulo, foram seis anos de relacionamento, seis anos de cobranças, de desculpas da sua parte, tanta coisa se passou…Mas eu preciso seguir minha vida. Eu quero ter filhos, quero ter uma família, um marido a quem eu possa chamar de “meu”. Ver você tem me causado mais mal que bem. Quando retorno para casa, depois de lhe ver, sou invadida por uma dor que não sei se é arrependimento, se é culpa, mas sei que não é amor, nem paixão…você foi a pessoa mais importante da minha vida nesses últimos anos e eu não teria chegado aonde cheguei sem sua ajuda, sem seu incentivo, sem seu carinho…Mas eu mereço ter minha vida de volta… Que Deus ilumine a sua…
Dr. Paulo leu a mensagem durante o trabalho. A cada palavra, seu coração batia mais forte, o suor da sua mão aumentava, sua respiração faltava. A sensação foi como se algo precioso demais estivesse escapando por seus dedos e, não importando o quanto ele apertasse, esse algo escaparia da mesma forma. Dr. Paulo precisou sair do gabinete, sair do prédio e, se pudesse, sairia de si mesmo, com o fim de fugir daquele sentimento horrível que lhe abatia. Num ímpeto, já dentro do carro sem destino aparente, ele pegou o celular e escreveu:
Marcela, eu te amo… Vou me divorciar hoje… Quero ficar com você…
Essa era a resposta que Marcela não queria ler. No fundo, o fato de Dr. Paulo ainda estar casado era só uma desculpa, um pretexto, para terminar o semi-relacionamento que eles tinham. Fosse Dr. Paulo solteiro, isso não mudaria em nada a resolução de Marcela - que, justamente por isso, respondeu algumas horas depois:
Já é tarde demais…nossos corações se desencontraram…
Enquanto esperava a resposta de Marcela, Dr. Paulo alternou sentimentos de ansiedade, medo, angústia, dúvida. Ensaiou ligar para ela algumas vezes, mas desistiu. As horas foram passando, porém, e Dr. Paulo foi recobrando a consciência. O casamento dele não era o melhor do mundo - se é que existe alguma gradação entre bons e maus casamentos -, a presença de Marcela já não era mais constante e, se bem vistas coisas, ele até tinha uma vida feliz. Seus filhos já eram adultos, ele esperava seu primeiro neto e tinha alguns bons e fiéis amigos - que se encontravam frequentemente em torno de uma churrasqueira e de vinhos caros. Dr. Paulo, então, não respondeu à mensagem de Marcela e, a partir de então, a vida dos dois seguiu separadamente.
Para ser preciso na narrativa desta história, o que ocorreu foi, para Dr. Paulo, como um daqueles milagres que nos ocorrem mesmo sem pedido. E, quando isso acontece, o ideal é agradecer. No dia seguinte ao término do relacionamento, era como se Dr. Paulo tivesse ganhado não só uma nova vida, mas também uma nova esposa. Acordou apaixonado outra vez. Abriu os olhos e pôde ver a Sra. Bernardes ainda dormindo, seu coração se agitou levemente e ele sorriu - sua vida parecia ter se enchido de energia novamente. Levantou-se da cama e fez questão de preparar o café da manhã, dispensando a empregada doméstica dessa tarefa. Pegou a frigideira, ovos na geladeira, consultou a dispensa e logo notou que não havia croissants com avelã, a comida preferida da sua esposa para aquela hora do dia. (Fazia tanto tempo que ele não pensava nas coisas preferidas da Sra Bernardes que foi necessário descrever, aqui, o acontecido.). Ele não poupou esforços. Saiu rapidamente, dirigiu-se à padaria (não a mais próxima, mas a que tinha os melhores croissants da cidade), com pressa para preparar tudo antes da sua esposa acordar. O trânsito pesado das manhãs de uma cidade grande, porém, atrapalhou seus planos e, quando ele chegou em casa, a Sra Bernardes já estava tomando seu café da manhã. A desconexão dos dois já era tão acentuada que, se o Dr Paulo saísse sem nada avisar, a Sra Bernardes nem se preocupava - já era assim há muito tempo. Ela, contudo, supreendida com o ato do marido, decidiu ignorar sua satisfação com o que já tinha comido e agradou seu novo marido comendo, primeiramente, apenas metade da iguaria - só ingerindo-a por completo depois de perceber que, de fato, tratava-se um belo e saboroso croissant.
Os dias de Dr. Paulo e Sra Bernardes seguiram assim. Na sexta-feira, logo depois do término dos laços com Marcela, ele decidiu assar pizzas na área externa da casa destinada a pequenos eventos. O forno de pizza já estava em desuso há uns três anos, pois as confraternizações normalmente eram acompanhadas de churrasco ou de comidas feitas no forno convencional. Dr. Paulo não economizou no evento. Comprou massas artesanais, queijos frescos e recheios caros, chamando a atenção a pasta negra que ele adquiriu mesmo ante os protestos da sua esposa. Não foi preciso comprar vinhos, pois Dr. Paulo já os tinha em grande quantidade e em boa qualidade na adega da residência. E ele, sem observar os costumes judaicos revelados nas Bodas de Caná, serviu os melhores vinhos tanto no início quanto no fim da festa.
Era visível para todos os convidados: Dr. Paulo estava jovial, parecia que tinha rejuvenescido dez anos. Quem diria que um segredo na vida é capaz de nos envelhecer tanto? Todos se questionavam sobre o que tinha de tão relevante para se comemorar, mas o anfitrião estava de tal modo feliz que uma pergunta desse tipo seria capaz de estragar a festa. No fim, todos aproveitaram - sobretudo, claro, o Dr. Paulo. E, se a Sra. Bernardes soubesse o motivo da festa, talvez estivesse tão feliz quanto o marido.
Marcela, de outro lado, estava tão cheia de trabalho - e de um trabalho que ela ainda não dominava bem, sobretudo na área de Direito Civil -, que nem pôde pensar nas consequências do término do relacionamento com Dr. Paulo. A vida estava num ritmo tão agitado que, quando o assunto era vida pessoal, tudo se resumia a conversar semanalmente com a mãe e a irmã, pois Marcela não tinha uma boa relação com o pai, e a ir três vezes por semana aos bares da cidade em que morava, sempre na companhia da delegada da comarca - de quem ficou amiga assim que tomara posse.
O tempo foi passando e colocando as coisas em ordem. O problema disso é que o tempo também coloca nossos pensamentos em ordem, numa ordem que nós queremos impor, e não na ordem das coisas externas. É estranho isso. Parece que na agitação da existência, os problemas vão se resolvendo sozinhos - ao menos os pequenos problemas. Quando, porém e enfim, podemos refletir sobre as questões da vida, no tempo ocioso, criamos problemas insolúveis - e quanto mais pensamos neles, mais insolúveis ficam.
Foi assim com Marcela. Como, de fato, a promotoria em que ela trabalhava tinha muita demanda e isso estava sufocando-a, o então Procurador-Geral decidiu criar mais um ofício na comarca, o que deu a Marcela mais calma no trabalho e mais dilemas na vida. Enquanto ela estava naquele tumulto diário, saía para tomar uma ou duas garrafas de vinho com sua amiga, a delegada que já citei, e relacionava-se de vez em quando com quem aparecesse, sem a menor vontade de criar vínculos permanentes. E o mais curioso desse período foi que o fato de Marcela ser muito atarefada a tornou extremamente atraente para os homens, que pensavam “como assim, ela não me quer?” - como se a rejeição por ela fosse algo pessoal, mas não era.
Nesse período inicial, logo depois de se ver promotora de Justiça, Marcela realmente não pensava em namorar ou coisa do tipo, apesar de ter conhecido homens à altura das suas exigências - que não eram poucas, não só por causa da experiência marcante com o Dr. Paulo, mas sobretudo porque, agora, ela era a Dra. Marcela Lins Ferreira. Não era “qualquer uma” - segundo ela mesma dizia, nas conversas de bar com suas amigas e nas muitas vezes em que ela se negou a sair novamente com determinado pretendente. Quem conhece bem a história de Marcela sempre se questiona sobre se o desfecho teria sido diferente, caso ela não tivesse chegado ao “topo” (expressão da própria personagem, inclusive). A questão é mesmo tormentosa. Porém, como em qualquer história humana, não existe o “e se”. Desse modo, só me resta contar como as coisas efetivamente aconteceram, sem cogitar destinos alternativos.
Com tempo para pensar em si mesma, Marcela logo se viu sozinha - sentimento que só não lhe havia aparecido ainda dada a avalanche de processos na promotoria. Ainda estava longe da família - que, a bem da verdade, se resumia à irmã mais nova e à mãe, tendo uma ou outra prima como familiar mais próxima -, tinha construído poucos laços firmes na cidade em que morava e seus fins de semana estavam seguindo ciclos de bebidas, ressacas e homens - quase todos ainda abaixo das suas expectativas. E como, segundo a experiência nos aponta, uma vida cíclica é própria dos animais irracionais, era compreensível que Marcela iniciasse, a partir dali, a busca por algum sentido mais profundo na existência. Decidiu, então, reduzir as saídas sem propósito aparente por saídas estratégicas com um objetivo claro em vista: “onde posso conhecer um homem para casar”.
E aqui precisamos interromper a narrativa para investigar melhor o que significa essa expressão “homem para casar” - muito em voga hoje em dia. Se a narrativa de Gênesis estiver correta, logo temos que Eva não precisou se preocupar em escolher seu par ideal. Adão era o homem para casar - aliás, o único. Com o avançar das comunidades, mas ainda antes das sociedades modernas, acredita-se que as mulheres também não tinham tanto essa preocupação na “escolha perfeita”. Primeiro, os homens não eram tantos assim. Segundo, em geral eram as famílias quem escolhiam os laços matrimoniais. Terceiro, em sociedades menores, todo mundo sabe quem é o bêbado, o maluco, o criminoso e o sujeito correto, de modo que ficava mais fácil indicar quem era o “homem para casar”. E hoje em dia?
Bem, hoje em dia, estamos perdidos nesse aspecto. Com a crescente complexidade das sociedades, nossas relações estão cada vez mais superficiais e não tem jeito: a aparência de fato pesa muito sobre nossas decisões a respeito de quem merece nossa consideração. Tudo precisa ser escolhido sem muitas informações: nossa profissão, ao prestar vestibular, nossas amizades e, claro, nossos e nossas pretendentes. Num piscar de olhos, escolhemos, sob o risco de incorrermos em um erro fatal. De todo modo, não nos cabe aprofundar o exame da questão. A história trata da vida da Marcela.
Como Marcela não tinha critérios muito claros para definir com quem se casar - ou seja, não sabia ao certo como definir o “homem para casar” -, ela elegeu um critério bem objetivo - questionável, mas objetivo: “quem possui status social semelhante ao meu?”. Nem importava tanto a profissão, desde que lícita. Podia ser médico, advogado, empresário, mas de preferência algum servidor público da alta burocracia estatal, cujos rendimentos fossem equivalentes aos dela. À primeira vista, parecia que o nicho escolhido por Marcela era vasto e numeroso. Na opinião dela, ainda era possível escolher, dentro do conjunto de homens que atendiam ao referido quesito, alguém íntegro, bonito e saudável. Enganou-se.
Logo depois que o radar de Marcela passou a captar os “homens para casar”, segundo o critério apontado, notou que muitos deles já eram casados e outros tantos não se interessavam por ela - ou porque queriam vidas de solteiro cheias de aventuras, aproveitando a boa condição financeira, ou porque não se sentiam à vontade com mulheres muito independentes. Além disso, mesmo quando Marcela encontrava alguém exatamente dentro dos parâmetros dela, sempre dizia “ah, esse é baixo, aquele não se expressa bem, esse parece sedutor demais, aquele não tem jeito de homem, esse é preguiçoso, o outro não gosta de viajar, esse não toma iniciativa, aquele não lembrou do meu aniversário, esse manda mensagens demais, aquele parece não se importar com minha opinião, esse defende o governo, aquele está acima do peso etc.”.
Depois de algum tempo escolhendo - isso mesmo: no gerúndio -, logo veio a pergunta “onde estará o ‘homem para casar’ de Marcela?” Quem pôde ver a história de perto estava habilitado a dizer que ele talvez estaria na cabeça dela - na projeção que ela mesma criou desse tal homem perfeito. Contudo, olhando bem os detalhes do acontecido, vemos que, mesmo que homem idealizado por Marcela fosse impresso diretamente das suas representações, ainda sim ela veria algum defeito nele. É bem provável que, face a face com o homem das suas próprias ideias, Marcela ainda pensasse “acho que eu esqueci desse ou daquele detalhe”. No fundo, estava claro que o prazer de Marcela estava em “ficar escolhendo”, sem jamais se decidir definitivamente.
Aos trinta e oito anos, porém, ela considerou aceitar o pedido de noivado de Roberto, um advogado importante da cidade, mais novo dois anos e cheio de expectativas com relação ao casamento, à família e aos filhos - e foi justamente aí que Marcela travou, nos filhos. A preocupação de Marcela, com relação aos filhos, não era com o custo financeiro derivado dos descendentes, mas com o possível custo estético. Ela tinha pavor de engordar, de ganhar varizes e estrias, de estender o quadril e de jamais poder recuperar seu padrão corporal anterior. Foi esse pavor que a fez ter certeza: “Roberto não é meu par ideal”.
Roberto descobriu isso da pior forma - ou de uma das piores formas, na verdade. Ele estava com Marcela há seis meses e sentia-se à vontade para pedi-la em noivado. Afinal, tudo tinha ocorrido bem e, nas duas viagens que fizeram, foi tudo maravilhoso: sem nenhuma briga, nenhuma desavença - sobretudo porque Roberto estava apaixonado, esse estado da alma que nos faz ignorar defeitos e supervalorizar qualidades do ser amado. Numa sexta-feira - dia em que era comum marcarem um bom jantar em algum restaurante caro da cidade -, Roberto decidiu pedir Marcela em casamento, sem saber, porém, que ela escolhera o mesmo dia para terminar o relacionamento. Uma trágica coincidência. Roberto ensaiou tudo, combinou com o garçom o momento e modo de levar a aliança à mesa. Só faltou combinar com o coração de Marcela. Enfim, foi um baita constrangimento. Ao fim do jantar, quando Marcela já havia ido embora, logo depois de comunicar suas intenções, o garçom dirigiu-se à mesa entusiasmado e perguntou a Roberto “como foi?”. “Não foi”, respondeu o cliente com um sorriso de lábios - em que não se mostram os dentes. “Ela disse que não quer ter filhos e que isso a impede de aceitar o pedido de casamento comigo” - acrescentou. O garçom pensou durante alguns segundos, tentando vasculhar algum comentário positivo diante daquela situação, e disse:
“Senhor, eu também não queria, mas eles foram aparecendo um atrás do outro e já se somam em cinco”.
Roberto, diante do comentário, sorriu, enfim, pagou a conta e foi sair com uns amigos solteiros - desses que, se não te ajudam com a solução do problema, ao menos ajudam a esquecê-lo.
Marcela não sentiu o menor remorso depois do término do relacionamento com Roberto, principalmente porque ela já tinha outro pretendente, como que no “banco de reservas”. Marcela era bonita, simpática e bem-sucedida. Era natural ter quatro ou cinco mensagens em seu celular - todas de pretendentes. Há dois meses, ela já vinha conversando com Tiago. Era uma conversa amistosa, daquelas que nem inflamam nem apagam a vela que sustenta o interesse do homem. Se ele, porém, excedia-se, Marcela esfriava. Se ele a ignorava, Marcela chamava-lhe a atenção, renovando as esperanças - num jogo milimetricamente planejado.
Tiago parecia perfeito. Era médico ginecologista, bonito, apesar de um pouco mais baixo do que Marcela, que tinha um metro e setenta e três - uma moça alta para os nossos padrões. Porém (e se o leitor está acompanhando bem a história, sempre tem um “porém”, nesse ponto), Tiago era divorciado e já tinha uma filha, a Lara, com cinco anos de idade. Tiago já tinha quarenta anos, era triatleta e um fenômeno nas redes sociais - um daqueles homens a serem fisgados. Eram muitas, inclusive, as mensagens de assédio que recebia na caixa de conversas privadas, principalmente depois de postagens dando dicas dessa ou daquela forma de aumentar o prazer feminino durante o sexo. O empecilho, como eu já disse, era a Lara. Não fosse ela, pronto! Talvez Marcela teria se casado e sido feliz pelo resto da vida - como num conto de fadas. Talvez.
Marcela gostava de Tiago, mas o problema é que ela gostava mais do “homem para casar”. Como ela já representava esse “homem para casar” há muitos anos, eles se apegaram demais, criaram laços fortes e talvez inabaláveis. Enfim, Marcela estava perdidamente apaixonada “pelo homem dos seus sonhos”, com quem nenhum homem real podia competir. Foi por isso que Marcela superdimensionou os problemas do relacionamento ligados a Lara - ela precisava de uma desculpa para continuar “escolhendo”. Se Tiago precisava ficar com a filha num ou noutro fim de semana, Marcela já ficava enfurecida, pois, segundo ela, Lara tinha ciúmes do namoro com Tiago. Marcela, então, passou a disputar a atenção do Tiago com uma criança de cinco anos, tornando-se, sem perceber, criança também, sem que Lara, para compensar, pudesse se tornar adulta.
Num dos fins de semana em que Tiago precisou ficar com Lara, a paciência de Marcela chegou ao fim. E, tratando-se de paciência infantil, bem sabemos que é curta e, se um brinquedo ou se um coleguinha incomoda o infante, este logo se agita, parte para a violência ou esperneia. Mas um fato em especial deixou Marcela enfurecida e resoluta em terminar o relacionamento. Tiago postou uma foto com Lara em sua rede social. Nem foi tanto a postagem que incomodou Marcela, foi mais a quantidade de pessoas que aprovaram a foto dos dois. Há momentos assim na vida: um pequeno motivo nos inflama a insatisfação com a existência inteira. Marcela dirigiu-se ao diário em branco, que já possuía há alguns dias, e o iniciou com a frase "Decidi terminar meu noivado…percebi que o Tiago ainda não é meu par perfeito…Não é que falta alguma coisa nele…sobra-lhe algo…sobra-lhe a filha".
Já no domingo à noite, quando Tiago não estava mais com Lara, os dois conversaram. Marcela inventou uma desculpa qualquer para evitar expor o motivo ridículo e egoísta que de fato motivava a decisão. Tiago não se opôs, o que deixou Marcela furiosa. “Era para ele insistir em ficar comigo” - ela pensava. Marcela ainda propôs um último jantar, na esperança de ver Tiago murmurar, pedir alguma reconsideração ou beijá-la em tom de reconciliação, mas nada…Tiago só disse “ok, sem problemas” e foi embora. Marcela chorou nesse dia e, no seguinte, não quis ir ao trabalho…Pediu para cancelar as audiências e ficou em casa, ruminando os pensamentos que, de rigor, resumiam-se a um só: “preciso encontrar o homem para casar”.
Dois anos depois do término do relacionamento com Tiago, Marcela foi à festa de fim de ano do Ministério Público do Estado de ***. Como sempre, foi uma festa grandiosa, com direito a buffet especial, a desfiles de moda masculina e feminina naquele ambiente feito de concreto, luminárias, tecidos, bandejas, taças e artificialismo. Marcela estava alegre, principalmente depois de alguns goles de vinho, quando, de repetente, avistou Dr. Paulo, que já havia se tornado Procurador de Justiça. Os olhos se conectaram e atingiram o fundo da alma daqueles ex-namorados, apesar da distância que os separava naquele salão agitado. O coração de Marcela se inquietou; o do Dr. Paulo continuou batendo normalmente, como se ele tivesse visto uma amiga de longa data. Ele, então, junto com a Sra. Bernardes dirigiram-se à mesa de Marcela com o fim de cumprimentá-la. Ele disse à esposa, já diante de Marcela:
Amor, ela foi minha aluna. Hoje é minha colega…
Sra Bernades cumprimentou Marcela cordialmente, sem nem imaginar que aquela mão havia conhecido o corpo do seu marido talvez mais profundamente do que as mãos dela própria.
Dr. Paulo, com o fim de preencher as lacunas do silêncio de Marcela, diante daquela situação, perguntou ingenuamente:
Então, Marcela, você se casou?
FIM